A CARNE DE XARQUE EM OFICINAS
Gilberto Freire de Melo
Escritor e "Beradeiro" de Pendências, Várzea do Açu-RN
Na tentativa de ampliar as reduzidas informações da história sobre a povoação de Oficinas, no atual município de Carnaubais, na Várzea do Açu, demo-nos ao trabalho de vasculhar alguns registros, trazendo a público detalhes que caracterizam a existência de uma indústria - a primeira no Brasil - com que conviveram nossos recentes antepassados.
Como faz parte da história sócio-econômica da região, fazemos questão de registrar, para conhecimento de nossa geração contemporânea.
Manoel Rodrigues de Melo, foi quem mais se aprofundou nos fatos que geraram e mantiveram, por não se sabe quanto tempo, desde que não se conhecem os primórdios do seu nascimento. Sabe-se, no entanto, que já existia em 1775, conforme referência do então "Governador e Capitão-General José César de Menezes, de Pernambuco, em sua Breve Notícia da Capitania do Rio Grande do Norte, na qual figura uma descrição da Ribeira do Açu", adiante transcrita.
Conforme nos descreve Manoel Rodrigues de Melo, as últimas edificações de Oficinas, quando já desativado seu empório industrial, e desabitado o lugarejo, desapareceram com as inundações do rio Açu, em 1924. O início das atividades, e o período de duração não foram registrados, fatos que nos levaram a percorrer os labirintos, os baús e as prateleiras onde se amontoam registros históricos regionais, sem ainda encontrarmos esses dados, sumamente importantes para a história sócio-econômica da Várzea do Açu e de seus desdobramentos.
Felizmente, Olavo de Medeiros Filho, outro incansável garimpeiro das minúcias históricas da região, autor de "RIBEIRAS DO ASSU E MOSSORÓ - Notas para sua história", nos traz alguns subsídios indispensáveis, resultado de suas pesquisas arqueológicas. E, nas páginas 11 e 12, do mencionado trabalho de José César de Menezes, bateado nas Oficinas Gráficas da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, nosso conterrâneo Olavo de Medeiros Filho, o faz seguinte registro que, embora não satisfaça a nossa curiosidade, se refere a épocas em que já era conhecida localidade da charqueada.
Esta Ribeira tem vinte huma legoas de Costa na Fazenda do Jabota azo Sul della, que divide com a ribeira do Apodi, e correndo para o Norte buscando a Marinha até a dita Costa na ponta do Mel em quatro gráos e vinte e dous minutos de Latitude, e trezentos e quarenta e cinco gráos e vinte minutos de Longitude, tambémdivide com a mesma ribeira do Apodi e correndo o rumo de Leste até o Porto de Agoa maré em quatro grãos, e vinte e cinco minutos de Latitude, e trezentos e quarenta e seis grãos e sete minutos de Longitude, divide com a ribeira do Norte, e virando ao rumo do Sul vai até a Fazenda do Sanha-há, e o riacho chamado garganta do Padre David, onde vai confundir em uma e outra parte com a Capitania da Parahiba, e a ribeira do Siridó: Há esta Ribeira de algum commercio, por virem todos os annos três ou quatro barcos às officinas a factura de Carnes secas e couramas (sublinhado pos nós): Tem uma povoação com sua Freguesia a qual he a seguinte: Povoação e Freguesia de S. João Baptista da Ribeira do Assú.
(MENEZES, José César de - Idea da população da Capitania de Pernambuco, e de suas anexas, extensão de suas costas, Rios e povoações notáveis, etc. Rio de Janeiro, Oficinas Gráficas da Biblioteca Nacional, 1924 (Págs. 11 e 12).
É o registro que temos de mais antigo da existência da indústria da Carne Seca (charque) em Oficinas, no atual município de Carnaubais, que a revista Veja, em meio à década de 90, do século XX, informou ser no Ceará. Nosso protesto, em carta enviada àquela revista, corrigia, afirmando que, talvez por desconhecimento geográfico, e dada a proximidade, alguém tenha informado ser no vizinho Estado do Ceará, o que fez, inclusive, alguém, igualmente desavisado, chamar de Carne do Ceará a charque produzida no Rio Grande do Norte.
São informações dignas de fé, fundamentadas em registros históricos do tempo de sua existência que nos põem a salvo de dúvidas e de questionamentos sobre a veracidade.
Em sua antologia sociológica sobre paisagens, tipos e costumes do Vale do Açu, intitulada VÁRZEA DO AÇU, de 1940, adquirida por nós já em terceira edição, de 1979, MANOEL RODRIGUES DE MELO, o mais respeitado cronista do baixo vale do Açu, nos convoca a reviver, com ele, os atos e os fatos que fazem vibrar de entusiasmo o espírito varzeano de quem teve a felicidade de aqui respirar a fragrância da palha da carnaúba, privilégio exclusivo de nossa região. Sobre oficinas, ele relata, com riqueza de pormenores, a fotografia das ternuras e das confraternizações humanas e sociais que não se dobram às asperezas que infernizam a vida dos nordestinos.
Assim, ele retrata a
FESTA
ALVORECIA A MANHÃ DE 19 DE MARÇO. A POPULAÇÃO de Oficinas despertava sob forte e estridente salva de roqueiras(*). Casas desalinhadas e confusas apresentavam, porém, aspecto festivo. Começavam a chegar os primeiros carros de bois trazendo as famílias ricaças da terra. Mulos possantes e gordos passavam sob o peso formidável das malas de "doces" rinchando pelo meio da rua. De longe em longe, ouviam-se tropeladas(*) de cavalos esquipadores(*), passando de estrada afora, quebrando a monotonia do lugarejo provinciano. À frente da capelinha branca, bafejada pelo vento fresco daquela manhã de março, esvoaçavam bandeirolas de papel de seda engalanando o adro com suas cores bizarras e vistosas. A banda do Açu executava formosos trechos na passeata da alvorada, despertando curiosidade nos transeuntes. As bodegas e as casas de tecidos abriam as portas alegres expondo cuidadosamente os seus mostruários rústicos. A povoação se movimentava por todos os lados apressando os preparativos para a festa.
Às seis horas da tarde começaram a passar as primeiras pessoas para a festa. A família de "Seo" Filipinho já ia saindo no carro de boi. As meninas do velho João Severino, o povo de Chico Ferreira, muita gente já ia passando.D. Marocas recomendou ao preto João Luís:
- Você não se esqueça de tirar a carne do varal, não, João Luís; tenha cuidado na janta dos "meninos" (homens feitos) para o cachorro não comer, já ouviu?
João Luís respondeu:
- Sim, senhora!
Adiante, uma das "meninas" (moça feita) gritou:
- João Luís, vá buscar a roupa dos "meninos" que está na casa de comadre Maria Rita, viu?
- Sim, senhora! Respondeu João luiz, novamente. E o carreiro deu sinal de partida.
- Boi bargaaaado!!!(*) - (lepo), o chicote estalava com força no lombo do boi. O carro saiu, chiando ali, piando acolá, até se encobrir na curva do beco. A passarem pela Ponta da Ilha, Samuel já estava se aprontando com a família. Houve troca de saudações, garridice de moças, gritaria. Maria de João Alves estava na porta, bucho à boca, com o menino escanchado no quarto, olhando a passagem da família de "Meu Padrim Filipim". O povo do Queimado já vinha chegando também, uns a pé, com os sapatos amarrados na mão, trouxas de roupa engomada no braço, outros a cavalo, conduzindo mulheres e moças na garupa, enquanto outros, amantes da mulher e dos filhos, levavam dois, três entre a garupa e a lua da sela.
Um João Alves de Melo, teria bons quadros para a objetiva de sua Kodak. Note-se o converseiro zunindo de estrada afora. De longe se ouvia o alarido.Pareciam que tinham bebido água de chocalho. João Belmiro passou tangendo uma jumenta carregada de "doces" das Quitérias. Sinhá dos Anjos tinha trazido um bocado de "doce" de Macau para vender na festa das Oficinas. Júlio Hermosa tinha chegado de "noco" c om um circo que era uma coisa do outro mundo. Vitória e Josefina pulando nos trapézios, dando pulos mortais, fazendo ginástica, dançando no arame, era de fazer cabra perder a bola. Júlio Hermosa, homem simpático e atraente, cabeleira longa e comprida, olhos castanho-escuros, pele moreno-bronzeda, trajando bem, usando culotes, com todo o rigor da moda, assim com ares de engenheiro que sabia muito, conversa elegante e desembaraçada, era só em quem se falava naquele tempo. Ocupou por vários meses o comentário malicioso da Várzea...
Naquela noite, lá estava ele, na sua pose de Dom Juan desconhecido, vestido na sua fatiota de casemira pardo-escura.
E o povo começava a chegar de todas as bandas daquele mundão semi-selvagem, admirado com a cabeleira do homem e com a beleza das moças do Circo.
Veio gente de toda a parte. Das Pendências, do Rosário, do Alto do Rodrigues, do Xambá, do Carnaubal, da Tabatinga, de toda a redondeza, enfim.
Oficinas era, naquela noite,m comparando mal, um grande formigueiro em movimento. Entrava gente e saía gente, cargas e mais cargas eram arriadas no meio da rua, cavaleiros subiam e desciam pela estrada do Curralinho; nunca se viu uma das festas nas Oficinas tão rica de aspecto, de movimentação de dinheiro e de gente. Henry Koster, acaso fosse vivo e andasse por ali,teria anotado coisas do arco-da-velha.
O sino da capela tocou a primeira chamada para a novena.Quem vinha, de longe, ouviria, por certo, a pancada do sino reboando de Várzea a dentro, cujo som acordava na alma dos convivas as delícias da festa passada.A música já estava no patamar quando o povo foi-se aglomerando. Instantes depois, a capela estava cheia. Começou a novena. As cantoras entoaram os benditos e a música acompanhou. Os foguetões pipocaram no ar. O povo ajoelhou-se. Nessa noite o leilão foi de feder a fogo. Depois da novena o patamar da Capela ficou coalhado de gente. João Crisóstomo começou a gritar:
- Quanto me dão pelo rebuçado(*) oferecido pela donzela Maria Rosa? Quanto me dão?
O namorado da donzela que ficava lá fora por trás do povo, na sua velhacaria de burro enjeitado, soprava no ouvido de algum morador e mandava botar oreço no rebuçado. Do outro lado aparecia o segundo pretendente ou "algum cabra que gostava de estrepar os outros" e começava a botar dinheiro no objeto só para fazer mal ao outro.
Essa contendas quase sempre iam muito longe. Um simples cravo de donzela poderia dar cem ou duzentos mil réis, moeda daquele tempo. Entre os ricaços da terra, porém, a coisa era diferente. Depois que eles embirravam para tirar um objeto em leilão não havia quem os demovesse daquela intento. Um copo de cerveja poderia elevar-se até a duzentos mil réis, conforme a disposição dos contendores. Na maioria dos casos, não era que o objeto tivesse o valor da oferta, e sim o dever que tinham eles de zelar o seu nome, a sua posição social oi econômica. Outras vezes era uma pequena quebra de cordialidade, um caso pessoal, um amor que estava em jogo, um objeto que se dava por conveniência. E que se queria reaver por todos os meios. Muitos o faziam também por mero lustre, diletantismo, outros ainda como acontecia com os rendeiros e meeiros do Baixo-Açu, como prova de estima e gratidão aos patrões. Terminado o leilão, a festa continuava em paz até o dia amanhecer.Todos brincavam e se divertiam na maior alegria e camaradagem. A cerveja lavava os balcões de todas as bodegas e botequins. O bozó e o caipira passavam a noite batendo. A jinjibirra e aloá exalavam um cheiro enjoativo no ar. O estrato Flor de Amor e a Oriza tinham gasto naqueles dias. Curió e Antônio de Espada, dois repentistas de fama da terra, passavam a noite bebendo cachaça e fazendo versos de improviso aos pés dos balcões. Décimas, loas, tendo por tema a festa, a cachaça, os motivos mais simples e banais. Os matutos de Tabatinga tinham vindo com cargas de aloá para vender na festa e ali estavam com as ancoretas trepadas em cima de caixões, gritando:
- Óia o aloá(*) bom!
- Óia a jinjibirra(*)!
O menino do caipira soltava um dito:
- Óia o caipira. Quem menos bota mais tira!
As doceiras estavam com as malas de doces expostas à venda. A praçuela cheia de botequins, o povo andando pra cima e pra baixo, um converseiro zunindo grosso, uns bebendo, comendo, outros fumando, prosando e dançando.
Um vendeão da Pendência berrava com força:
- Chega, freguesia, prô moca de Sinhá Maria!
Os soldados mata-cachorros que tinham vindo do Açu andavam rondando por ali, arrotando lembrança e querendo introduzir regras novas na vida do povo da Várzea. Zé Quingu ficou logo zangado com o inxirimento daquele soldado arregalando os olhos para ele, como se ele tivesse medo de careta. Naquela noite não sei que diabo de veneta deu em Chico de Barros(*) que ele foi ter na festa das Oficinas. Quando ele apareceu no meio do povo as mulheres começaram a cochichar umas com as outras, acompanhando com os olhos os passos do valentão da Tabatinga. Ali, acolá, ouviam-se comentários baixos, no ouvido uns dos outros, como quem estava segredando alguma coisa.
- Aquele é Chico de Barro!... - diziam.
- Cala a boca, menina!... Tranca essa língua!... - diziam outros meio assustados.
E, num refrão de susto e de medo, ouviam-se ainda essas vozes:
- Virgem Nossa Senhora, me valha São José das Oficinas, não permitais que haja barulho!...
Foi assim que se propagou de repente a notícia de que Chico de Barros estava na festa.
Mas o galo só canta grosso no seu terreiro. Chico de Barros foi à festa mais com o fito de se divertir do que mesmo de fazer arruela. Tinha bons amigos nas Oficinas, gostava dos Filipe, cuja amizade era velha e por isso nenhuma vontade de arruaça o dominava. Aquilo tudo era besteira do povo.
Logo desapareceu a desconfiança de todos quando o viram na maior camaradagem com os Filipe, braços dados, bebendo, prosando, naquele risasdaria estrepitosa e cheia de verve.
E a festa continuou calma, com aquele zunzum medonho de gente pra cima e pra baixo, até a hora da missa.
Eram cinco horas quando badalou a primeira pancada do sino chamando os fiéis. O altarzinho foi armado no patamar da Capela denotando o gosto artístico e o devotamento que mereciam ali as coisas de Deus. O povo se comprimia todo ali; pararam todos os carrocéis, os caipiras e os bozós; Um silêncio enorme encheu toda a atmosfera vazia! O padre sobe ao altar. Passa um sopro de vitalidade por aquelas frontes desfiguradas e amarelecidas pelo sono e pela inhaca da cachaça, da cerveja e do vinho do Porto. O vigário sobe ao púlpito e faz um sermão, em estilo água-de-rosas como que selando os folguedos da noite. Em seguida anuncia a hora dos casamentos e batizados que são emglobadamente de cinqüenta a mais. Terminada a missa, todos se dirigem para as malas de "doces" a fim de levarem uma lembrança da festa.
Outros compram garrafas de vinho do Porto para dar de presente a algum amigo que não veio à festa, ou à preta velha que ficou por dona da casa, tomando conta dos meninos pequenos e dos bichos de chiqueiro. Sequilhos, doces secos, bolo de milho, pé-de-moleque, grude, alfenins, de toda versidade(*), eram todos arrebatados depois da missa. Nestes últimos, porém, havia inúmeros modelos atraindo os olhos cubiçosos dos meninos ricos e das moças ingênuas e casadouras da Várzea. As grandes rosas com as pétalas abertas, os cravos alvíssimos, os cavalinhos bem ripados, os carneiros cheios de lã, os patinhos ariscos presos em conchas ovais, os abacaxis e dezenas de outras "formas" interessantes formavam o mundo dos meninos e das moças que iam à festa. Não só dos meninos e das moças, mas de todos, dos pais, das mães, das matronas gordas e ricas, cheias de ouro, de trancelins, de voltas, anéis, grampos e marrafas, usando echarpes de seda fina, botins de cano comprido, espartilho, totós, leques e todos os ademanes da época e da moda.
A venda de todas essas guloseimas era uma velha tradição ali existente que ainda hoje faz parte das festas da região.
Outro aspecto curioso da festa do padroeiro de Oficinas, como de todas as festas da redondeza, era o infalível passeio a cavalo, dos melhores cavaleiros e cavalos da região.
João Piolho, Sebastião Belo, José Felipe e tantos outros de gosto e de fama, montavam nos seus cavalos esquipadores e saíam fazendo piruetas pelo meio da praça(*) para todo o mundo ver, admirar e aplaudir. O povo ficava parado, no patamar da Capela, na frente dos botequins, nas janelas das casas, no meio da rua olhando a parelha(*). O cavalo de João Piolho parecia uma rede balançando. Ele tirava o freio e o cabresto e o cavalo saía marchando com a mesma naturalidade de quem não estava fazendo nada... O caipira e o bozó continuavam a bater depois da missa, até o sol alto.O povo regressava às suas vivendas distantes, cochilando pelo meio da estrada. Os cavaleiros passavam de magote, esquipando e correndo de estrada afora,, matando o bicho(*) nas bodegas, riscando os cavalos(*) nas portas dos amigos, naquela prosa danada que não tinha fim. As famílias voltavam em cima dos carros de bois, cochilando com a quentura do sol batendo de chapa na cara das moças, das velhas, das matronas pesadas e gordas, dos meninos, das negras, de todos que voltavam da festa, moles de sono e de enfado. Assim que chegavam em casa caíam dentro da rede que nem uma pedra dentro dágua. Ninguém tivesse o trabalho de chamá-los para o almoço, porque o sono, a ressaca da festa, ajudados pela embriaguez do vinho, da cachaça e da cerveja, eram muito mais poderosos do que a fome. As grandes fazendas, tão movimentadas nos dias regulares, pareciam, nesses dias, um ermo desabitado. A povoação se fechava toda com os moradores dormindo dentro das casas.Uma tristeza imensa invade o lugar. O padre regressava ao Açu, depois dos casamentos e dos batizados. Não se via vivalma andando na rua, indicando que a festa se tinha acabado".
GLOSSÁRIO
(*) Roqueira - O autor talvez queira referir-se a "ronqueira" Espécie espingarda, arma de fogo, que, ao disparar, produz som troante, rouco, roncador, ouvido além dos limites de sua ação.
(*) Tropeladas - Derivado de "tropel". Som produzido pela marcha cadenciada dos cavalos esquipadores, no barro duro da Várzea.
(*) Cavalos esquipadores - Uma espécie de cavalos adaptáveis às exigências do "mestre domador" que os ensinava a marchar num trote especial, cadenciado, mais largo, entre o chouto e o galope. Joca de Melo, no Saco, desfilava em seu cavalo esquipador, conduzindo, na mão, sem derramar, um copo de cerveja.
(*) Parelhas - Par de cavalos esquipadores que se exibiam em conjunto.
(*) Padrim Filipim - O autor se refere a "Filipim", um ricaço da região, tronco-raiz da família Felipe, ramificada na região. Como exercia liderança e patriarcado na Várzea do Açu, apadrinhava, batizando os filhos da maioria dos habitantes.
(*) Aloá - Suco, ponche, jinjibirra, ou garapa de frutas (às vezes da casca do abacaxi, por exemplo), adoçada com açúcar, que se vendia nos botequins, nas feiras ou nos ajuntamentos de pessoas em movimento.
(*) Chico de Barros - Um tipo popular da região do Baixo Vale do Açu, dado a arruaças, encrenqueiro, temido pelos habitantes da região, que foi assassinado por Antônio de Gila, no Chambá, após desfeitear uma sua irmã.
(*) Matando o bicho - Bebendo cachaça. Diz-se do ato de tomar "umas e outras".
(*) Riscando os cavalos. Ato de fazer interromper a marcha dos animais, parando-os bruscamente. Diz-se "riscar o cavalo", pelo fato de a parada inesperada produzir riscos dos cascos do animal, levantando a poeira do solo local.
(*) Versidade - Diversidade. Aqui o autor é fiel à linguagem dos varzeanos.
(*) Praça - Uma demonstração de quanto era importante a povoação, cuja sede era dividida em praça, ruas, etc.